“É assim
que é o abraço, uma fita dando voltas. Então o amor e a amizade são isso. Não
prendem, não escravizam, não apertam, não sufocam. Porque quando vira nó, já
deixou de ser um laço”. (Maria Beatriz Marinho dos Santos).
Muita
coisa relava a nossa personalidade. Uma leve mordida nos lábios ao pensar numa
bobagem, um piscar de olhos ao passar por um constrangimento, um olhar
atravessado ao cruzar com um desafeto e assim vai. Dizem, por exemplo, que o
abraço é um fator determinante na especulação sobre quem se avalia. Fala-se
também que o ato de abraçar é coisa enraizada da cultura latina. E que os
brasileiros, então, dominam como ninguém essa prática. Ou mania, em alguns
casos. Dependendo do nível de entrega, pra algumas pessoas mais opiniosas, é
possível até captar com que tipo de pessoa se está lidando. Pra esses, o
encostar dos corpos, o entrelaçar dos braços, o encaixe perfeito das pernas e o
repouso exato da cabeça entregam a "vítima" do enlace. Esse último
pra minha pessoa fala tudo, principalmente. Através disso crio uma impressão,
dou minha sentença.
Não sei
se por saber que é ela quem governa todo o resto do corpo, mas avalio sem o
menor pudor as pessoas com as quais me entrego a esse gesto. É simples. Se me
abraçou e repousou sua cabeça na minha ganhou um ponto. Claro que a coisa
funciona em conjunto com os outros itens do pacote. Mas esse sim é o meu
medidor oficial. Mesmo porque doutos na arte da falsidade sabem como poucos
unir os seus corpos aos nossos, nos entrelaçar com seus braços pegajosos e
encaixar suas coxas nas nossas sem transpassar a menor das angústias. Assim
mesmo.
Desconfio
cegamente de quem não abraça. Pelo menos até que encontre algo que justifique.
E desconfio mais ainda de quem abraça e não toca o rosto. Porque uma coisa é
encontrar um amigo num ônibus lotado e bancar o inconveniente. Outra é vê-lo
num shopping e acenar com palidez por vergonha ou machismo. Definitivamente,
não quero próximo de mim pessoas desse tipo. As que longe do "grande
público" são doces e fraternas, mas na rua te avaliam como se estivessem
numa entrevista de emprego. Quanto aos “duas caras”, deixo a cargo da habitual
antipatia que meia dúzia já julga. É o preço. Não há com o que se preocupar. E
antes que me julguem, isso é tão somente uma questão de sensibilidade, de
opinião, uma vez que, ninguém obriga ninguém a nada.
Só isso.
Abrace mais, independente de cara feia. Perdemos grandes chances de sermos
melhores ao abdicarmos de determinadas atitudes. E não estou sugerindo que
ninguém abrace o mundo com as pernas. Mas a gente nunca sabe o que se passa na
cabeça das pessoas com as quais convivemos. Talvez quem você menos espera
esteja precisando um pouco mais de atenção. Talvez você seja essa pessoa. É com
quase absoluta certeza que afirmo que quem se deixa chegar perto permite-se
também tocar. P.S. O título do texto foi inspirado sim na música "com
açúcar, com afeto", do Chico Buarque de Holanda. Obra essa que sempre me
agradou, tanto pelo conteúdo quanto pela sonoridade de seu nome. Não deixei
exatamente igual apenas pra não passar uma impressão de "puxa-saquismo-barato",
rs... Coube-me, com isso, poupar o "açucar". Espero não ter ficado
menos doce.
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