“Nada
pior do que este amor fraterno entre um homem e uma mulher que antes já viveram
loucuras. Melhor odiar aquele que você amou carnalmente do que torná-lo irmão.
É por isso que todo relacionamento precisa de baixaria para acabar. Para não
sobrar nenhum afeto civilizado, muito menos amor. Um amor morto. Amor molenga,
flácido, gelatinoso. Amor de madrinha. Um horror.” Desde
que li essas palavras da escritora Fernanda Young que minha
cabeça nunca mais foi a mesma. E é certo que ela entendia do que
estava falando quando as escreveu. Escritores são assim. E ela faz bem, tanto
que não se conta mais nos dedos, há tempos, o tamanho da identificação do
público com suas obras. Só quem domina muito um determinado assunto pode
expressar com precisão a sensação de dar de cara com alguém cuja intimidade já
fez parte da sua. Não há coisa mais estranha. E por mais que uma ou outra
criatura "civilizada" teime em defender que sempre é possível
cultivar uma "amizade saudável" ao fim de um relacionamento, continuo
achando que o melhor mesmo é manter uma distância considerável. Ainda mais se o
término foi uma coisa meio que sem pé nem cabeça, tipo “ficamos por aqui e cada
um vai pra um lado. No futuro se a gente se esbarrar, bem. Se não, paciência”.
É desse tipo de pacto que nasce uma maldição que dura a vida
de um burro. Sim, porque das duas, uma: ou você foge quando dá de cara com
aquele zumbi ou se for um eterno apaixonado morgará em vão a expectativa de que
aquela vez pode dar certo. E não vai, ambos sabem. É verdade: o tempo passa, o
mundo é uma escola e todo mundo merece uma segunda chance. Mas ex não é “todo
mundo” e faz parte de um time de exceções apenas por uma razão, que de tão
lógica quase sempre é esquecida: se fosse coisa boa não seria ex, e sim, atual.
Ok, você é uma pessoa evoluída espiritualmente e tem no peito um
coração que só sabe amar. Mas isso são predicados que cabem apenas a você e não
precisam ser externados, muito menos virar uma bandeira a ser levantada.
Portando, nada de manter vínculos com o “falecido”, mesmo que ele seja a
reencarnação do Marlon Brando. Tudo tem um limite. E se tem uma coisa que não
contribui em nada na vida de ninguém é ficar pagando de simpático pra quem não
merece.
Nada de ligar pra perguntar como vai a vida, isso e aquilo mais.
Aliás, o único motivo pra manter salvo um número desses é pra gravá-lo na lista
negra do celular. Redes sociais então, nem pensar. Aí é dar um tiro no pé. Não
há coração desencantado que resista às atualizações de um ex. Caso não possa
fugir dessa, bom senso sempre. Aguente na sua ou o exclua. Comentar foto de
maneira mimosa ou curtir a mudança no status de relacionamento é o fim da
picada. É como afirmar de maneira documentada que ainda sente algo por aquela
pessoa ou que acompanha os seus passos. Resumindo, o cúmulo da falta de
noção.
Por falar nisso, manter contato com familiares também não rola. E
"Karmas" como esses não faltam. Sempre tem uma cunhada carente pra
dar uma de amiga, um primo desocupado pra fazer a ponte e sem falar na pior categoria
da espécie: a sogra-mala inconformada. Elas são capazes de tudo pra conseguir o
que querem. Criam situações, fingem doenças, até se adaptam ao mundo digital e
quando pensamos que estamos livres, elas aparecem cobrando visitas e não medem
esforços quando o assunto é “eu sei o que é o melhor pro meu filho”. Corra
para as colinas.
É numa hora dessas que penso nas palavras da Fernanda e por uns
instantes cogito a ideia de passar, de leve, pelo terreno do "cortar o mal
pela raiz". Às vezes, é bem melhor manter distância por conta de uma raiva
do que proximidade por comodismo ou falsa expectativa. Pamonhice tem
limite. Amor próprio manda lembranças.
P.S. tudo aqui escrito são impressões baseadas em experiências. Quem tiver seus ex e adjacências e manter com eles relações maravilhosas, que continue. Até pra isso há exceções.