quarta-feira, 30 de abril de 2014

Aquilo que ME pertence

Tem gente que chama de olho gordo. Já outros, mais ortodoxos, chamam de cobiça. Hoje em dia está na moda usar a expressão “recalque”. Mas eu continuo gostando da definição clássica: inveja. Do latim invidia, que quer dizer olhar com malícia. Segundo o Aurélio, ainda a fonte mais confiável no quesito dúvida, nada mais é do que o desgosto ou amargura pelo bem ou felicidade de outrem, é o desejo violento de possuir o bem alheio. Trocando em miúdos: querer o que não lhe pertence, usar o que não lhe cabe.

Todo mundo um dia já passou por ela, indo ou voltando. Alguns desde que se entendem por gente. Uma experiência tão antiga quanto dar os primeiros passos ou aprender a formular as primeiras frases. As mães que me desculpem. E quem nunca se deparou com uma criança que larga o brinquedo que tem nas mãos para tomar o que está com outra que atire a primeira pedra. É assim mesmo, o alheio desde muito cedo costuma ser mais interessante. Somos mesmo quando pequenos criaturas egoístas. O problema é que muita gente cresce e esse defeitinho acompanha, vira definitivamente uma coisa fora de controle.

Acha que é exagero? Experimente receber um elogio mais original diante de um "amigo" ou arranje um namorado um pouco mais bonitinho. Não faltará quem torça contra, mesmo que pela frente tudo pareça lindo e maravilhoso. Sim, também nem precisa ir muito longe, uma vez que a inveja não obedece um padrão ou classe social. O portador desta nem sempre almeja dinheiro ou beleza, já que muitas vezes, pode ter essas duas coisas. Ele quer aquilo que é só seu. E isso vai desde algo simples, coisa que talvez a “vítima” nem saiba que possui - uma cintura mais afilada, um talento em especial pra culinária, uma letra bonita, até mesmo popularidade ou um casamento. Detalhes que naturalmente brilham e por isso, chamam tanto a atenção de quem não os tenham. Pessoas que além de torcer contra, conspiram e tramam pra que tudo dê errado na nossa vida. Aquele velho ditado: se não pode ser meu, de mais ninguém também não será. Quem já sofreu com isso sabe que não estou mentindo. Fato.

Há uns dias resolvi dar uma passada pelo “pai dos tolos” pra procurar alguma informação interessante sobre o assunto e me deparei com uma campanha publicitária de uma famosa marca de xampus, divulgada há dois anos, na Rússia. Sem comentários, mesmo porque não precisa. Tenho certeza, quem trabalha nessa área deve mesmo passar dia & noite “maquinando” ideias pra chamar a atenção do público e com isso alavancar ainda mais o mercado. Mas confesso que nunca tinha visto uma síntese tão fiel sobre o assunto. Cheia de clichês e verdades. O sonho que começa na infância, o talento, as puxadas de tapete, as dores, a superação e blablablá. Recomendo. E pra não esquecer: o foco da mensagem aqui não é o final feliz em si, mas sim o desenrolar da coisa. É ressaltar a identificação que todo mundo sente quando toca sua própria experiência. E uma última dica, atentem para a cara da "Inveja" e me digam se já não cruzaram com ela, sem ao menos notar. Segue abaixo a indicação, só não vale chorar. Muito menos imitar a jogada de cabelo da mocinha. Hahay.


(Para acompanhar o vídeo com calma você pode pausar a música no topo da página)


terça-feira, 28 de janeiro de 2014

A vida como ela é...

Não havia outra maneira de começar essa categoria de posts, já que desde quando me deram a ideia de criá-la que associei, de cara, a este livro. Exatamente. Minha relação com ele é meio platônica – perdão pelo clichê, visto que, sempre que entrava em alguma livraria ele me surgia disponível em meio a tantos outros. Mas como nada que vem de graça costumamos dar o devido valor, o deixava de lado e apanhava outro com mais apelo. Voltava pra casa frustrado.

Sempre gostei do Nelson. Dos temas que discutia, da forma como fazia, dos sentimentos que suas obras expressavam. Começou quando Engraçadinha foi adaptado pra TV em forma de minissérie. E a paixão aumentou quando o Fantástico começou, um ano depois, a exibir os episódios de “A vida como ele é”. Ficava imaginando quais as motivações desse homem que sintetizava tão bem o “verdadeiro” ser humano. Real mesmo, já que pra ele todo mundo é o que é de fato. Não existe essa de mascarar um defeito, uma falha. E é aí onde mora o bom da coisa: todos somos capazes de tudo: invejar, matar, praguejar, trair, cometer suicídio ou até mesmo tacar fogo no próprio corpo. 

Enfim. A obra reúne cem ótimas crônicas distribuídas em quase 500 páginas. Um livro bonito, grosso – uns dois dedos de espessura em páginas de papel bege e especial. Pra andar agarrado ao peito. Pura qualidade, o melhor do Nelson. Destaque pro pontapé inicial dado com a fatídica “O inferno” e pras já famosas A dama da lotação, O justo, Ódio de Cunhada, Cemitério de bonecas e A mulher do próximo. E o que continua chamando atenção, mesmo com quase seis décadas da criação da maioria dos textos, ainda é a sagacidade dos temas abordados numa época marcada pela repressão e defesa dos já famosos “bons costumes”. 

Um detalhe interessante é que quando descobri tal livro, tratava-se de uma outra edição, de bolso, por sinal, capa azul, letrinha miúda, folhas brancas e com uma caricatura do autor na capa. Editora Saraiva. Uma espécie de tijolinho. Esse que descrevi ao longo do texto é um livro maior, com o dobro do tamanho do que tinha interesse. Editora Nova Fronteira. Compõe uma homenagem ao centenário do Nelson. O ganhei sem saber de sua existência, num amigo secreto em família, no qual passei uma lista de dez outros que desejava receber. Uma surpresa maravilhosa. Prato cheio pra quem gosta de ler a vida como ela verdadeiramente é.