segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Carta ao “Medo”

Meu caro

De cara vou logo perguntando, como vão as coisas?! Como você está, ainda detonando a autoestima das pessoas? É provável que ao ler essa carta, certamente num desses intervalos entre aterrorizar uma vítima e já procurar outra, lhe suba uma súbita vontade de arrancar minha cabeça. Ou melhor, entrar nela e manipular mais uma vez a minha vontade. Criatura, como as coisas mudam, em?! Aliás, como “determinadas” coisas mudam, em?! Refiz a frase porque sei que você deve estar do mesmo jeito, a diferença reside somente no parasita ao qual você deve estar instalado. Digo “parasitas” porque é verdade, porém sem ofensas, claro. Que deprimente! Agora gostaria de ser um mosquitinho, daqueles bem chatos, que zunem nas nossas orelhas quando passamos próximos de um terreno baldio qualquer só pra ver essa sua cara sem-sal-nem-açúcar.

Suponho que você deva estar se perguntando: Mas ele não fala que o passado ficou no passado? Verdade, tudo verdade. Mas é que ando recorrendo à confecção dessas cartas sempre que me dou conta que deixei algo por dizer a alguém. Idéia essa que agarrei com unhas e dentes desde que uma tal pessoa que muito admiro soltou no ar. Você sabe, numa carta colocamos pra fora tudo que sentimos com riqueza de detalhes, sinais de exclamações, com todos os pingos nos is e com todas as vírgulas possíveis. Detalhe sobre essas cartas: Antes eu as escrevia apenas por escrever, para desopilar, mas agora cheguei à conclusão de que quando as escrevo nesse tom mais agressivo sinto que estou mais perto da minha natureza, apesar de ser uma pessoa aparentemente pacífica. Quem diria, em? Adoro esse paradoxo.

Como acho que uma carta razoavelmente medíocre precisa conter no mínimo notícias dos que a escrevem, creio que deva te atualizar de algumas de minhas recentes proezas. Ultimamente ando fazendo coisas que achei que jamais faria. Uma dessas e por sinal, das que mais tem me dado mais prazer em praticar é concluir determinadas vontades interrompidas, aquelas boicotadas pelos seus bedelhos, quase sempre me colocando pra trás. Sabia que eu não sabia que sabia atacar? Pois sei. Essa descoberta revolucionou a minha vida e resgatou de uma vez por todas a caixa preta da minha autoestima. Descobri por exemplo que tenho nojo de tudo aquilo que lembre a tua passividade, seja ela em qualquer circunstância. Por conta desse seu legado desenvolvi uma técnica muito útil, que ressalta impetuosamente a agressividade citada no segundo parágrafo. Avanço em cima de tudo aquilo me remete a sua lembrança.

Não é exagero não, avanço mesmo, como uma sensação de nojo reversa, a mesma que sentimos quando nos deparamos com um inseto perigoso. Seria mais ou menos assim, dirijo-me ao dito cujo já em posse da lata de veneno e lhe dou uma polpuda borrifada, sem piedade, daquelas de secar o bagulho, no melhor estilo “ensopar”. Boa essa, não? E antes que você pense que me tornei a imagem de Hércules dos dias atuais tenho mais uma novidade pra te contar. Espero que não sinta ciúmes, pois ainda te considero ou não estaria te escrevendo. Troquei descaradamente a tua companhia pela do teu parente mais próximo, o Temor. E não pense que foi uma punhalada pelas costas, porque não foi. Ele é bem mais compreensivo, mais humano, mas contemporâneo, mas natural. Pronunciar o nome dele combina infinitas vezes mais com a personalidade que descobri que possuía.

Findo dizendo que sei que nossa cidade é um ovo, logo, não me surpreenderia te flagrar por aí ainda boicotando o futuro das pessoas. É a sua função e você ganha pra isso, só não sei o que, então não vou te criticar. Jamais te pediria que continuasse assim, pois seria hipocrisia demais e daria a falsa impressão que quero que você atormente os outros. Não é porque me livrei de você que te desejo às outras pessoas. Nem por brincadeira. Nem se tivesse um “arqui-inimigo”. Espero que nunca se esqueça de minha pessoa, muito menos daquilo que me tornei, mas sem reaproximações, é claro, do contrário, não hesitarei em voar no seu pescoço, literalmente. Prometo. Fico por aqui. Nenhuma sombra de saudades.


Denis

4 comentários:

  1. Adorei o texto, Denis! Ferino, irônico e bem escrito. Palavras sem rédeas, sem freios, assim como o ódio. Parabéns, querido! Bom vir aqui... Voltarei sempre!

    ps: Agora que cheguei, vou ficar à vontade e ler tudo! E roubando suas palavras como quem rouba flores: Não tenha nenhuma sombra de dúvidas! rsrsrs

    Beijos Grandes

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  2. Gente do céu, verdadeiro e chocante, suas palavras sabem fazer pensar!
    Adorei esse texto, espero q algum nos conheceremos melhor!

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  3. Denissss... Perfeito! O medo mexe com todos mesmo. Vc sabe tocar nas coisas que são realmente inerentes ao ser humano. Bjossss

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  4. O medo é um bichinho que não tem cheiro, nem rosto. Mas como nos interfere esse danado. Obrigado por dar na cara dele por mim.

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