Então é
natal, e o que você fez? Bem, o que você fez ou deixou de fazer, fracamente,
não me interessa. Assim como o que eu fiz, creio, não deve importar pra muita
gente. Essa é que é a verdade. E viva! Feliz por isso.
Entra ano
e sai ano e a mesma ladainha atordoa a vida de meio mundo: perdoar. Ou melhor,
passar por cima das feridas, dos desencantos e até por cima do amor próprio por
conta desse sentimento que o fundamentalismo religioso estabeleceu que precisa
ser concedido nesse período, que é quando todos vestem roupas bonitinhas e
fingem gostar uns dos outros. É difícil distinguir, mas compensa quando se
consegue: trégua é uma coisa, esquecer, outra e perdoar, uma terceira
extremamente diferente. E isso não tem nada a ver com dogmas. Mas sim com o que
cada um guarda de mais precioso, que é a sua dor e o que ela trouxe de valor.
Ninguém
tem o direito de chegar e dizer na cara dura que eu, você ou outra pessoa
precisamos absolver quem quer que seja nas vésperas do Natal pra vivermos
melhor o ano seguinte, visto que, quem quer ferir não conta conversa e destrói
de batizado a casamento, independente de ser dia santo ou não. Pode parecer
estranho, mas vale uma reflexão: perdoar no dia de Natal é dizer entre outras
palavras que uma ferida que te abriram no dia 07 de setembro, ou em 23 de
janeiro, ou 02 de novembro, tanto faz, de nada valeu. E valeu sim, muito. É com
isso que a gente aprende.
Dizem as
línguas menos pensadas – ou mais teimosas – que só alcançamos a plenitude
quando superamos nossos traumas. Ok, então me diz uma coisa: Você superou
aquela traição pdp que o seu ex namorado cafajeste te
fez? Superou a puxada de tapete gigante que o seu melhor “amigo” te passou pra
conseguir o que queria? Superou a cena em que seu pai alcoólatra espancava sua
mãe e seus irmãos sem nenhum motivo? Superou? Passou por cima? Mesmo? Convivem
todos juntos como se nada tivesse acontecido? Se sim, meus sentimentos. Vossa
majestade precisa mesmo de uma dose cavalar de amor próprio. Não, não estou
mandando ninguém comprar uma arma e fazer justiça com as próprias mãos. O
buraco é bem mais embaixo.
Se alguém
se arrependeu de algo que te fez e/ou precisa que você diga com todas as letras
que aquilo são águas passadas isso é da parte dela. Necessidade dela. Dela para
com ela. Então, que procure um amigo paciente, um bar ou uma boa terapia e
resolva suas questões. Você não tem nada a ver com isso. A gente não tem o
poder de selecionar uma situação desagradável, excluir da nossa mente e em seguida,
ir à lixeira e esvaziá-la, como se estivéssemos lidando com uma máquina. É aí
onde mora a grande evolução.
Sim, eu
quero perdoar porque também preciso ser perdoado. Tudo bem. Mas antes disso vem
uma coisinha chamada “Empatia”, que é colocar-se no lugar de outra pessoa caso esteja ou
veja-se em situação semelhante a que ela viveu. Então eu não faço com esta o
que não quero que façam comigo. Essa é a ordem. Não aconselho ninguém a viver
em prol de vingança ou descontar suas frustrações em quem está mais
próximo, que é o que geralmente acontece. Nem todos temos as mesmas motivações.
Viver dessa forma mexe mais com nosso interior do que a gente imagina. Desejo
apenas que cada tire pra si a lição que lhe for mais preciosa, seja em vinte e
cinco de dezembro ou no primeiro dia do ano.
Orgulhe-se
de ser o que é, porque você é o
que viveu. Perdoar porque é Natal é o mesmo que dizer que deixaremos passar as
atrocidades que nos fizeram em qualquer outra época do ano, pois no fim tudo se
supera. E isso não é justo. Certas coisas não merecem perdão. E quem aguentar aguentou.
Trauma que é trauma não se supera, aprende-se a conviver com ele, quando muito.
Desde que eu não destrua o sonho de ninguém, a forma com que lido com minhas
angústias é somente da minha conta. Cabe a cada um transformar a sua dor
em algo bom, no seu tempo. Ou não. E se você é daqueles que vez por outra
vê-se dando conselhos, sugerindo anistia às dores alheias, que pegue sua
digníssima opinião, dobre-a três vezes e devolva pro seu bolso furado. Pra não
dizer coisa pior. Zefini.
P.S. um outro sinônimo para "Empatia" seria "Alteridade", que como bem ficou claro, é ser capaz de apreender o outro na plenitude da sua dignidade, dos seus direitos e, sobretudo, da sua diferença. Colocar-se no lugar de.
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